Folias de Momo
Sexta-Feira. 24 de fevereiro de 2006. Cinco horas da tarde. Levando em conta que a horda de bárbaros migrando para a farofada anual na Região dos Lagos ainda não deve ter largado o “sirviçu”, creio que dá tempo de ir e voltar da Tijuca são e salvo. O simpático gordinho que me atendera de manhã disse que meu carro voltava da revisão “lá pelas 4:30”. Chego lá às 17:15, pego o carro, cruzo o túnel e chego em casa ainda em tempo para a novela das seis. Ledo engano. Ao chegar na auto-mecância sou informado que por um problema clássico na rebimboca da parafuseta minha caranga só será liberada as seis em ponto. Gordinho filho de uma puta. Nada me resta a fazer a não ser ler o Manual do Usuário Ford 2006, na salinha com ar-condicionado e água grátis. O relógio bate seis horas no exato momento em que extermino o décimo sétimo copinho d´água (o calor nem tava forte ali dentro, mas aqueles putos iam me pagar de alguma forma pelo atraso). Vou pela quinta vez ao balcão e sou informado que meu carro acabara de chegar. Dou a partida no bichão e saio em disparada. Se tudo correr bem, chego em casa antes que os foliões de escritório tomem as ruas.
Ao dobrar a primeira esquina percebo que meu drama estava apenas começando, e que eu não imaginava as proporções momescas que ele iria tomar. Meu conhecimento da Zona Norte da cidade limita-se à Tijuca, mesmo assim apenas o trajeto da minha casa a do meu primo, sem escalas. Se um belo dia resolvem fechar uma das ruas eu corro o risco de ir parar em Minas Gerais. Tranqüilo, deve ter alguma placa indicando Túnel Rebouças. Não tinha. Passo em frente ao histórico clube do América Tênis Clube, admirado por nunca ter visto a sede de tão importante clube carioca e ao mesmo tempo assustado de constatar que decididamente não fazia uma puta idéia de onde me encontrava. Segunda medida: pedir informação. “Xiiii, aqui é complicado...” me confidencia o negão que enchia meu tanque com o equivalente em álcool a 5 reais, tudo o que me restava na carteira. “Você pode tentar pegar a Pça da bandeira.” Opa! Esse nome eu pelo menos já ouvi falar. Deve ser mole. Sigo a indicação do meu camarada frentista e abro um sorriso ao identificar o trajeto conhecido como “voltando do Maraca”. Beleza, já voltei daqui várias vezes. Tudo bem que geralmente de carona, mas estou reconhecendo claramente o caminho. Exceto por aquele viaduto ali a frente. Por cima ou por baixo? Um amigo uma vez disse que túneis foram feitos para cortar caminho, portanto, se estiver perdido e se deparar com um, fique tranqüilo: você está no caminho certo. Adaptei esta suspeita lógica para a versão viaduto e toquei pra cima confiante. Leitor, atenção! Se estiver perdido JAMAIS suba um viaduto. Eles são como aquela tábua que aparece nos navios pirata. Você vê que está indo se foder mas não tem como recuar. É desesperador, eu lhes digo. A cada metro que seguia naquela porra eu calculava o quanto estava me fodendo. Uma olhadela pro medidor de combustível e achei prudente desligar o ar por precaução. Desci em um lugar bastante nefasto, eu diria. Aquele aspecto de centro da cidade, só que mais ermo, mais sujo, e mais longínquo. As placas mais familiares apontavam para o Centro ou Linha Amarela. Tão reconhecíveis quanto indesejáveis. Decidi tentar seguir para o centro. Sabia que de alguma forma poderia tentar alcançar o Aterro do Flamengo e chegar em casa. O tempo já não me afligia mais. Eu só queria sair daquele inferno.
Ruas fechadas me fizeram contornar o prédio dos correios, algo que em meu imaginário se assemelhava as ruas que me levariam ao Aterro pareciam cada vez mais distantes. Outra rua fechada por PMs. Pessoas fantasiadas a pé passavam aos montes nas calçadas e já tomando as ruas. Cada vez mais carros se uniam ao meu naquele trânsito. O calor estava foda. E o pior: não havia caminho a escolher. Eu agora estava sendo escoltado a força em direção a Terra do Nunca. Se minha situação fosse um enredo de Escola de Samba, ele seria: Os devaneios da burguesia no Inferno de Dante Tropical. O trânsito seguia a 20km/h. O combustível marcava apenas um ponto. No checkpoint seguinte, resolvi apelar: “Seuguarda, to fudido de gasolina aqui não dá para liberar a passagem não?” O meganha nem me olhou, fez que não com a mão como quem diz “se fode aí”. Malditos porcos fardados. Marginais assalariados. Corruptos da segunda divisão. Ao retomar meu lugar da fila notei que o trânsito não andava mais. Minha gasolina ia embora rapidamente. O calor era intenso e as pessoas naquela humilde Vila em sei-lá-onde-eu-estava sentavam suando na calçada admirando aquela peregrinação de carros. Era como se ali estivesse o desfile de bacanas ao qual assistiam anualmente, já que não tinham acesso aos camarotes de cervejaria ou sequer as arquibancadas da Sapucaí. Quando percebi que ao lado de meu Eco Sport o carro melhorzinho era um Escort XR3 com a logo da Audi, achei que seria uma boa manter a janela fechada. Suando, sem gasolina, no trânsito. As placas mostravam lugares que eu só conhecia de Funks Proibidos. Quando, ao longe, vislumbrei um caminhão de lixo entrando na fila que se formava a minha frente entreguei os pontos. Amaldiçoei o Carnaval. Amaldiçoei meu irmão que me fizera buscar o carro na oficina em seu lugar. Amaldiçoei John Ford ou sei lá quem tenha inventado o automóvel. Joguei as mãos para o céu e deixei meu destino nas mãos de Deus.
Uma senhora em um Fiat Uno ao meu lado abre uma fresta em sua janela e com os olhos esbugalhados me pergunta: “Sabe se isso aqui vai dar na Zona Sul?” Eu me esforço para, com uma expressão, responder: “Minha querida, mais fodido do que eu você não está.” Ela parece entender o recado. Resignada ela vira-se para a frente tristonha, quando de repente avista uma placa e me aponta feliz como uma criança que achou a saída do Labirinto. Avenida Presidente Vargas! Prometo aos meus orixás que se em menos de meia hora eu conseguisse chegar até aquela mítica rua do centro da cidade eu votaria nos descendentes de Getúlio até o fim de meus dias. Dito e feito. Salvo o ocasional bloco de foliões maltrapilhos consegui seguir em frente em ritmo normal. O trânsito melhorava a medida que deixava para trás aquela Marcha de Pingüins cor de jambo, se dedicando a grande festa da carne. Carne de gato e de polpudas folias, mulatas da Acadêmicos de Vila Mimosa ou daí pra baixo. Passando por Copacabana, céu já escuro abro finalmente a janela e deixo o ar entrar. Ainda não estava tecnicamente na Zona Sul, mas já me sentia seguro e relativamente a salvo. Em Ipanema o mundo já parecia mais colorido. E, quando finalmente cheguei no Leblon o ar parecia mais puro e a vida mais bela.
Cheguei em casa, liguei o ar e prometi a mim mesmo: Carnaval, só no camarote da Brahma. Negão parrudo, só empurrando carro alegórico. E mulher suada, só na minha cama. E tenho dito.
Ao dobrar a primeira esquina percebo que meu drama estava apenas começando, e que eu não imaginava as proporções momescas que ele iria tomar. Meu conhecimento da Zona Norte da cidade limita-se à Tijuca, mesmo assim apenas o trajeto da minha casa a do meu primo, sem escalas. Se um belo dia resolvem fechar uma das ruas eu corro o risco de ir parar em Minas Gerais. Tranqüilo, deve ter alguma placa indicando Túnel Rebouças. Não tinha. Passo em frente ao histórico clube do América Tênis Clube, admirado por nunca ter visto a sede de tão importante clube carioca e ao mesmo tempo assustado de constatar que decididamente não fazia uma puta idéia de onde me encontrava. Segunda medida: pedir informação. “Xiiii, aqui é complicado...” me confidencia o negão que enchia meu tanque com o equivalente em álcool a 5 reais, tudo o que me restava na carteira. “Você pode tentar pegar a Pça da bandeira.” Opa! Esse nome eu pelo menos já ouvi falar. Deve ser mole. Sigo a indicação do meu camarada frentista e abro um sorriso ao identificar o trajeto conhecido como “voltando do Maraca”. Beleza, já voltei daqui várias vezes. Tudo bem que geralmente de carona, mas estou reconhecendo claramente o caminho. Exceto por aquele viaduto ali a frente. Por cima ou por baixo? Um amigo uma vez disse que túneis foram feitos para cortar caminho, portanto, se estiver perdido e se deparar com um, fique tranqüilo: você está no caminho certo. Adaptei esta suspeita lógica para a versão viaduto e toquei pra cima confiante. Leitor, atenção! Se estiver perdido JAMAIS suba um viaduto. Eles são como aquela tábua que aparece nos navios pirata. Você vê que está indo se foder mas não tem como recuar. É desesperador, eu lhes digo. A cada metro que seguia naquela porra eu calculava o quanto estava me fodendo. Uma olhadela pro medidor de combustível e achei prudente desligar o ar por precaução. Desci em um lugar bastante nefasto, eu diria. Aquele aspecto de centro da cidade, só que mais ermo, mais sujo, e mais longínquo. As placas mais familiares apontavam para o Centro ou Linha Amarela. Tão reconhecíveis quanto indesejáveis. Decidi tentar seguir para o centro. Sabia que de alguma forma poderia tentar alcançar o Aterro do Flamengo e chegar em casa. O tempo já não me afligia mais. Eu só queria sair daquele inferno.
Ruas fechadas me fizeram contornar o prédio dos correios, algo que em meu imaginário se assemelhava as ruas que me levariam ao Aterro pareciam cada vez mais distantes. Outra rua fechada por PMs. Pessoas fantasiadas a pé passavam aos montes nas calçadas e já tomando as ruas. Cada vez mais carros se uniam ao meu naquele trânsito. O calor estava foda. E o pior: não havia caminho a escolher. Eu agora estava sendo escoltado a força em direção a Terra do Nunca. Se minha situação fosse um enredo de Escola de Samba, ele seria: Os devaneios da burguesia no Inferno de Dante Tropical. O trânsito seguia a 20km/h. O combustível marcava apenas um ponto. No checkpoint seguinte, resolvi apelar: “Seuguarda, to fudido de gasolina aqui não dá para liberar a passagem não?” O meganha nem me olhou, fez que não com a mão como quem diz “se fode aí”. Malditos porcos fardados. Marginais assalariados. Corruptos da segunda divisão. Ao retomar meu lugar da fila notei que o trânsito não andava mais. Minha gasolina ia embora rapidamente. O calor era intenso e as pessoas naquela humilde Vila em sei-lá-onde-eu-estava sentavam suando na calçada admirando aquela peregrinação de carros. Era como se ali estivesse o desfile de bacanas ao qual assistiam anualmente, já que não tinham acesso aos camarotes de cervejaria ou sequer as arquibancadas da Sapucaí. Quando percebi que ao lado de meu Eco Sport o carro melhorzinho era um Escort XR3 com a logo da Audi, achei que seria uma boa manter a janela fechada. Suando, sem gasolina, no trânsito. As placas mostravam lugares que eu só conhecia de Funks Proibidos. Quando, ao longe, vislumbrei um caminhão de lixo entrando na fila que se formava a minha frente entreguei os pontos. Amaldiçoei o Carnaval. Amaldiçoei meu irmão que me fizera buscar o carro na oficina em seu lugar. Amaldiçoei John Ford ou sei lá quem tenha inventado o automóvel. Joguei as mãos para o céu e deixei meu destino nas mãos de Deus.
Uma senhora em um Fiat Uno ao meu lado abre uma fresta em sua janela e com os olhos esbugalhados me pergunta: “Sabe se isso aqui vai dar na Zona Sul?” Eu me esforço para, com uma expressão, responder: “Minha querida, mais fodido do que eu você não está.” Ela parece entender o recado. Resignada ela vira-se para a frente tristonha, quando de repente avista uma placa e me aponta feliz como uma criança que achou a saída do Labirinto. Avenida Presidente Vargas! Prometo aos meus orixás que se em menos de meia hora eu conseguisse chegar até aquela mítica rua do centro da cidade eu votaria nos descendentes de Getúlio até o fim de meus dias. Dito e feito. Salvo o ocasional bloco de foliões maltrapilhos consegui seguir em frente em ritmo normal. O trânsito melhorava a medida que deixava para trás aquela Marcha de Pingüins cor de jambo, se dedicando a grande festa da carne. Carne de gato e de polpudas folias, mulatas da Acadêmicos de Vila Mimosa ou daí pra baixo. Passando por Copacabana, céu já escuro abro finalmente a janela e deixo o ar entrar. Ainda não estava tecnicamente na Zona Sul, mas já me sentia seguro e relativamente a salvo. Em Ipanema o mundo já parecia mais colorido. E, quando finalmente cheguei no Leblon o ar parecia mais puro e a vida mais bela.
Cheguei em casa, liguei o ar e prometi a mim mesmo: Carnaval, só no camarote da Brahma. Negão parrudo, só empurrando carro alegórico. E mulher suada, só na minha cama. E tenho dito.






